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TRANSCENDÊNCIA
E IMANÊNCIA Esteve Jaulent* |
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Em 1325, nove anos após a morte de Raimundo Lúlio, Tomás le Myésier, cônego de Arras, redigia o Electorium , que haveria de ser conhecido como a primeira síntese do pensamento luliano. Le Myésier, que fora educado na Sorbona, conhecia Lúlio desde 1287 e tornou-se seu discípulo e admirador. Acreditava que os escritos de seu mestre seriam importantes para resolver a forte crise doutrinal que se instalara no pensamento filosófico no primeiro quartel do século XIV. À sua morte, Le Myésier legou o Electorium ao Colégio da Sorbona. Na Pars antecedens do Electorium, Le Myésier fornece uma visão bastante completa do estado da lógica, física, metafísica e ética contemporâneas e esclarece que o conjunto de textos que apresenta é a base mínima que se exige do leitor, pois "entendendo-se bem a filosofia... em pouco tempo pode-se adquirir a Arte de Lúlio". A seguir, vem a Pars prima disponens ad Artem Remundi, uma esforçada introdução do próprio autor à doutrina de seu mestre, repleta de esquemas articulados. O resto do manuscrito é composto por 52 obras de Lúlio, completas ou apenas em trechos selecionados, cujo núcleo é a Ars magna generalis et ultima, a versão definitiva da Ars. Completam a obra um resumo da vida de Lúlio e uma exposição do sentido e da intenção da obra luliana. Qual o objetivo que tinha em mente Le Myésier ao fazer essa extensa compilação? Sem dúvida alguma, tornar mais curta a assimilação da doutrina luliana, "mantendo contudo a integridade de seu sentido, a fim de iluminar o estudo e aliviar os olhos do leitor". Os "modernos", parece ser, já apreciavam a brevidade . Um exame atento da obra atesta que o cônego de Arras teve bastante sucesso nessa empreitada e a crítica posterior confirma que o Electorium reflete adequadamente o pensamento luliano. Mas porque este interesse? Ja dissemos acima que Le Myésier considerava que o pensamento de Lúlio teria alguma força no sentido de solucionar os antagonismos que se instalaram entre os aristotélicos radicais da Faculdade de Artes e os mestres da Faculdade de Teologia . Acrescentemos agora que Le Myésier, que conhecia muito bem os pensadores de seu tempo, pois esteve em contato com eles no período em que preparava suas compilações para a Universidade de Paris , percebeu claramente a dificuldade de compreensão que necessariamente apresentaria a obra luliana a quem estivesse educado na lógica aristotélica . Lúlio escrevia numa linguagem pouco comum, inventava palavras e forçava o leitor a fazer o mesmo constantemente. Além do mais, com freqüência substituía conceitos por letras, com a dificuldade adicional de não poucas vezes uma letra assumir diversos significados. Afinal, em que consiste a Arte de Lúlio? Nada melhor para responder a esta pregunta que lançar mão da própria explicação do Le Myésier. A Ars Luliana Comecemos por dizer, grosso modo, que a Ars apresenta-se como um sistema relacional de conceitos com caráter universal . Compõem sua estrutura um conjunto de princípios, suas definições e umas condições de funcionamento. A primeira impressão conduz a assimilá-la a uma lógica exclusivamente formal, mas logo percebemos que seu alcance é muito superior, pois todo o sistema visa o conhecimento do real. De fato, Le Myésier começa sua introdução descrevendo o que acabou sendo conhecido como "figura do ente" , que a rigor representa a totalidade do Ser tal como é atingido pelo espírito humano: uma esfera em cujo centro se situa o homem e a partir do qual, em círculos concêntricos, aparece em primeiro lugar o ente real sensível, depois, uma zona que representa tudo quanto alcançamos com a imaginação e finalmente o mundo espiritual; pois o entendimento, confirma Le Myésier, por ter mais forma, ato, natureza e ser, que a natureza corpórea, atinge as substâncias espirituais. O que pode ser chamada a matéria da Ars luliana será pois todo o Ser inteligível. A sua forma, a verdade real. Está implícito no seu funcionamento que o Ser é inteligível e que o entendimento humano pode alcançá-lo. Assim como o olho sadio necessariamente vê o corpo situado à sua frente, assinala Le Myésier, um entendimento bem disposto, num corpo bem disposto, necessariamente entenderá, e não poderá não entendê-la, a verdade do seu objeto - as propositiones per se notae -, se esse objeto estiver presente nele. A Ars busca portanto concluir proposições verdadeiras. Salienta, porém, que a verdade das proposições depende da verdade real do objeto fora da mente e é essa última - a verdade do ser -, a que interessa à Arte. A teoria de conhecimento embutida na Ars é, pois, realista. Poderia ser resumida nestas poucas palavras: o que está no entendimento humano não é a coisa, mas uma semelhança ou espécie inteligível dela; a seguir, por um outro ato - o ato de conhecer ou entender propriamente dito - o entendimento expressará ou manifestará, mediante o conceito, a re obiectata. O conceito expressado remete à coisa. Voz significativa, o conceito é, pois, um sinal segundo, por ser sinal do primeiro sinal que é a espécie inteligível. O que está subentendido neste processo é que se a espécie inteligível provém diretamente da coisa conhecida - a re obiectata -, o entendimento poderá atingir a coisa . O que chama a atenção na "figura do ente" é justamente o fato de estar toda ela montada sobre o Ser. Mais em concreto, sobre o ato de Ser. As criaturas descendem de Deus segundo uma ordem de semelhança de maior a menor. Das mais sutis, puras e luzidias, para as menos sutis, puras e luzidias, até chegarmos ao corpo. Lúlio, de modo algum monta um universo de essências. Como todo autêntico filósofo, quer conhecer o ente concreto empírico. Admira, pois, o esse mundi, onde introduz também todos os entes possíveis . É sobre este universo de verdades reais, que se estendem de Deus até os corpos mais ínfimos, que o espírito humano se derramará na sua ânsia de saber. Por que admirar que o homem racional deseje conhecer todas estas coisas com o máximo de seu fervor? Segundo Lúlio, tudo quanto é criado é principiado e feito a partir de uns princípios universalíssimos - bondade, grandeza, duração, poder, sabedoria, vontade, virtude, verdade e glória - que em Deus se encontram num modo divino, constituindo seu Ato puro de Ser. Entretanto, cabe distinguir diferenças não só entre cada um desses princípios entre si, mas também entre cada um deles e seus atos intrínsecos e naturais . Aqui Lúlio descobre-nos sua reflexão sobre a natureza intrínseca do ato ao descrever os chamados correlativos do ato, ou tríplice constituição interna do mesmo. Assim, não se pode dar um ato de bondade sem o bonificativo, o bonificável e o bonificar. Pois bem, todo ente criado participa do Ser pelos atos intrínsecos e naturais destes princípios - em Deus chamados de Dignidades, ou atributos - por cuja ação tudo o que é se encontra em ato primeiro ou segundo . Além desses princípios universais, Lúlio coloca outros, também generalíssimos e necessários, que integrarão todos os entes sem exceção, sem os quais nada poderia estar em ato verdadeiro. Assim, além da "diferença" a que nos referimos antes entre os princípios e suas operações, o maiorquino indica a "concordância" de todos os princípios entre si, com seus atos mútuos e influxos respectivos; a "contrariedade" que aparece uma vez destruída a concordância; o próprio "princípio", que necessariamente deve principiar o que é principiado; o "meio", através do qual o princípio atinge seu fim e perfeição, daí que a razão de fim também tem que ser um princípio necessário. Lúlio classifica o princípio que tende a um fim ainda não possuído como princípio menor. Por isso, haverá nas coisas os princípios de "maioridade", "igualdade" e "menoridade", sem os quais não poderia haver ordem, paz ou tranqüilidade, nem nada movido de menor a maior, mas sim confusão e separação e por conseguinte ausência de conhecimento e operação . O sistema da Ars inclui desta forma uma constelação de entes em ato, quer substanciais, quer acidentais, entes de razão, entes instrumentais, artificiais e possíveis, com todas as operações imanentes e transeuntes cabíveis, todos eles principiados pelos princípios acima mencionados. Este realismo cognoscitivo estará sempre presente no funcionamento do mecanismo da Arte: o significar pressupõe o entender, e o entender pressupõe sempre o ser. Com outras palavras, o entender depende da coisa, e o significar depende do entendimento e do entender. Será necessário também expressar sempre os conceitos da mente por vozes que exprimam a realidade mais íntima do objeto e, ao mesmo tempo, saber o que se diz com os nomes. A seguir definem-se nove grupos, ou âmbitos, sobre os quais pode dirigir-se toda dúvida ou ignorância humana: Deus, anjo, céus, homem, o mundo da imaginação, o mundo sensível, o mundo vegetal, o mundo elementar, e o mundo artificial. Estes domínios abrangem todas as possibilidades do errar e do agir humano . Finalmente, advirta-se que a respeito dos entes implicados nestes domínios, cabe duvidar de nove maneiras diferentes: se é, o que é, de que é, porque é, quanto é, qual é, onde está, quando é, de que modo é e com que é. Mediante estas indagações, e sempre respeitando as definições, regras e condições descritas na Ars, Lúlio oferece um sólido sistema de apoio ao pensamento humano. Após esta sucinta apresentação da Ars, e antes de entrarmos na descrição do seu funcionamento, cabe fazer duas rápidas observações. Em primeiro lugar, digamos que a Ars luliana não constitui uma lógica, mas o conjunto de todas as lógicas. Com efeito, ao considerar todos os entes do ponto de vista do ato de ser, Lúlio consegue obter a sua unidade. Só essa perspectiva, a perspectiva do ato, possibilita uma unidade transcendental. Note-se que não só as formas físicas e metafísicas são atos; os conceitos e as palavras também o são. Ora, todo ato, na medida em que o é, é inteligível e conseqüentemente lógico. Portanto, além da lógica dos conceitos, haverá uma lógica das palavras e uma lógica para cada ente físico e metafísico. Uma é a lógica de Deus e outra a dos homens; outra a dos animais, e assim por diante. Deve-se isso ao fato de existirem diferentes níveis de atualidade no universo dos entes. Aristóteles, que atribuiu à substância maior atualidade que ao acidente, sabia disso, e por esse motivo situava a unidade das categorias em outro ato exterior a elas, o ato do juízo. No juízo pensamos simultâneamente o sujeito e o predicado . No aristotelismo, portanto, é o ser do pensamento o que em definitivo unifica. Lúlio, pelo contrário, unifica todos os entes considerando-os sob a perspectiva do ato de ser, pois ao ato corresponde de fato o sentido próprio do ser. Aristóteles sabia perfeitamente que o ser do juízo refere-se a outro sentido de ser, um sentido incapaz de "manifestar que qualquer natureza de ente se encontra fora da mente" . Por esse motivo o ser do juízo "não permite considerar as causas e princípios do ente enquanto ente" . É justamente este o obstáculo que supera Lúlio, ao construir uma lógica do ato que considera o ente a partir de seus princípios . Tendo este objetivo, a Ars terá de basear-se nas intentiones primae ou sinais mentais das realidades exteriores, e acabará sendo tanto uma Lógica como uma Metafísica. No primeiro capítulo da Introductoria Artis demonstrativae Lúlio assim o confirma: "A metafísica considera as coisas que estão fora da alma, enquanto convém na razão de ente. A lógica todavia as considera segundo o ser que estas coisas têm na alma, pois trata de certas intenções que obtemos das coisas inteligíveis, a saber, do gênero, da espécie e outras semelhantes, e também daquelas coisas que consistem em atos da razão, como o silogismo, a conseqüência e outras tais. Contudo, esta Arte, como suprema de todas as ciências humanas, considera indiferentemente o ente segundo este ou aquele modo." A Ars é pois uma lógica das lógicas, uma lógica primeira de atos, um Logos, que abrange todo o Ser, porque o Ser, como o ato, é inteligível . Em segundo lugar, cabe indicar que o mecanismo da Ars é ao mesmo tempo inventivo e demonstrativo. A primeira denominação da Ars era Ars compendiosa inveniendi veritatem (ca. 1274) e na época entendia-se por "inventiva" uma lógica calcada sobre os Tópicos de Aristóteles, isto é, uma lógica de argumentos prováveis e não demonstrativos . Uma dialética. Com efeito, o método da Arte é dialético; ensina a colocar questões e a solucioná-las por meio da descoberta de diversas proposições compostas -as consequentiae materiales bonae simpliciter - de diversos tipos, dentre as quais o artista deverá optar por uma delas, apoiando-se nas regras de inferência da lógica proposicional. Ocorre no entanto que o conjunto argumentativo da Ars fundamenta-se, como vimos acima, sobre as primeiras intenções, e esta é a principal diferença entre ela e os Tópicos de Aristóteles. A Ars permite analisar o ente a partir de seus princípios. A matéria das argumentações são os princípios em Deus, ou os diversos níveis de suas combinações nas criaturas, de tal modo que abrange todos os conteúdos do pensamento, podendo incluir até conteúdos de fé . A forma mediante a qual esta matéria é trabalhada vem dada pelo segundo grupo de princípios - diferença, igualdade, contrariedade, princípio, meio e fim, e igualdade, maioridade e menoridade - atuando como condições de veracidade. O método é pois dialético, uma versão restritiva do silogismo simples; todavia, como toda a Arte converge para o ato de ser do real, sua aplicação não termina, como fazia Aristóteles, nas relações entre noções comuns - gêneros, espécies, acidentes e propriedades - mas se prolonga até as primeiras intenções. Dai resultam duas conseqüências importantes: em primeiro lugar, as proposições que o artista pode extrair são infinitas. Diz assim o maiorquino: "Portanto, mediante esta Arte podemos encontrar infinitas relações, e consoante as mesmas formar diversas proposições" . Em segundo lugar, as relações descobertas são relações reais entre coisas existentes e portanto podem fornecer veracidade real às inferências, o que não acontece com os tópicos aristotélicos que, por serem procedimentos elaborados em cima de noções comuns, aplicam-se a coisas que entre si podem não ter nenhuma relação. A tópica luliana possui uma dignidade epistemológica superior; seus argumentos são necessários, e portanto demonstrativos. Nas primeiras Artes Lúlio reforçava seus argumentos dialéticos em analogias tiradas sobretudo da física de seu tempo - os exemplos, semblances ou exemplis -, mas, à medida em que se precata do poder demonstrativo de sua dialética, abandona essa prática, consciente de que os atos a nível corporal são apenas figura dos atos metafísicos. Sua Arte examina os atos ao nível de seus princípios; por isso manterá as demonstrações clássicas, a propter quid e a quia e desenvolverá a demonstração per aequiparantiam, na sua opinião a mais demonstrativa de todas, pois se baseia em argumentos de congruência a partir de princípios constitutivos do real, enquanto que os princípios de onde partem as outras duas demonstrações aristotélicas são as noções comuns do que é conhecido como causa, no primeiro caso, e como efeito, no segundo.
Uma vez terminada em 1308 a versão definitiva da Arte, a Ars generalis et ultima, Lúlio compôs uma série de opúsculos dedicados à aplicação da Arte. Cabe destacar entre eles o Liber de lumine, o Liber de regionibus sanitatis et infirmitatis, a Ars de iure, o Liber de intellectu, o Liber de voluntate e o Liber de memoria. Finalmente, na sua Lectura Artis, quae intitulata est brevis practica tabulae generalis , mostra como o sistema artístico por ele desenvolvido pode-se aplicar a todos os ramos do saber . Tomemos por exemplo a investigação que Lúlio realiza sobre o entendimento, no seu Liber de intellectu. Na primeira distinção, Lúlio apresenta as ferramentas conceituais com que o artista trabalhará. Começa descrevendo nove grupos de combinações dos princípios generalíssimos constitutivos do ente entendimento e a seguir coloca as condições que resultam da comparação destes grupos entre si. Surgem imediatamente os condicionamentos que a vontade e a memória exercem sobre o entendimento, além do imposto pela sua própria natureza que consiste em ser sempre indagativo. Outros condicionamentos dos atos intelectivos vêm dados pela necessidade de reduzir a uma explicação pelos princípios os aspectos implicados no seus objetos: a causa eficiente e formal ao seu princípio e ao seu fim, o nada à menoridade, o pecado à privação, a malícia ao contrário da bondade, a parvidade ao contrário da grandeza, Deus à eternidade, luz à sabedoria, etc. A Arte não funciona sozinha, mas é um subsídio para o artista que deve formular as questões e resolvê-las. Portanto, torna-se necessário aprender as definições dos princípios. Com as definições à vista, o artista tem ao seu dispor dez regras que resumem todos os motivos de dúvida, já enumeradas acima - se é, o que é, de que é, porque é, quanto é, qual é, onde está, quando é, de que modo é e com que é -. Algumas destas perguntas podem ter várias subespécies; por exemplo, a pergunta "de que é o entendimento" pode ter dois sentidos: ao primeiro se responde dizendo que não é feito de outro; a segunda subespécie refere-se à sua constituição pelos princípios coessenciais - os correlativos -, e se responde dizendo que o entendimento está constituído pelo seu intelectivo, seu inteligível e o seu entender. Na segunda distinção, Lúlio, obedecendo às definições dos princípios, combina quatro deles, tomados sempre de dois grupos, e constrói as máximas universais e necessárias às quais depois aplicará as regras ou perguntas. Assim por exemplo, combinando o primeiro e o quarto grupo, deduz a seguinte máxima: "Se a bondade é o ente em razão do qual o bom atua o bem; e a vontade é o ente em razão do qual tal agir é desejável; e agir sem distinguir é impossível; nem a vontade boa sem tal agir não pode sossegar; segue-se que o bom atua o bem desejado e sossegado, suposto todavia que não seja impedido. E o entendimento necessariamente é compelido a entender isto, e contra isto não pode entender." Esta máxima, e outras semelhantes, devem ser contrastadas com as condições do entendimento, que no caso são dez. O entendimento é difusivo, pois multiplica sua semelhança tornando as coisas inteligíveis; é compositivo, pois compõe espécie com espécie; é causativo, porque cria as espécies; é dispositivo, enquanto dispõe a vontade a amar e a memória a recordar; etc. etc. Juntando as máximas, as condições do entendimento e os princípios o artista estará já em condições de aplicar as regras ou perguntas e construir, a partir do conjunto, inumeráveis proposições ou questões nele contidas. As proposições que respeitem as máximas e condições devem ser aceites como verdadeiras; senão devem ser rejeitadas. A aplicação das regras é longa e pormenorizada, pois contempla todos os casos ou condições do entendimento. Por exemplo, quando se pergunta pela "possibilidade" do ato do entendimento, esclarece que se deve analisar sempre a grandeza do seu ato inteligível em função da maior inteligibilidade, da maior memória e do maior amor da vontade. E o mesmo faz com relação à verdade do seu ato e aos outros princípios. Além disso, cabe também combinar perguntas, de modo que no final resulta um conjunto enorme de caminhos para encontrar soluções às mais variadas questões, do tipo "como se dispõe o entendimento a entender o verdadeiro e o falso?", "porque o entendimento é formal?", "a vontade e a memória são súbditas do entendimento?", "porque o entendimento alcança Deus?", e assim até 275 questões listadas e resolvidas todas elas na parte final do Liber de intellectu. Não nos pode estranhar a complexidade da Ars luliana. Ao pretender captar as diferenças do ser ao nível do real, Lúlio não se satisfaz com a apreensão das diferenças conceituais do ser pensado, que é ao que se reduz a lógica aristotélica. Com outras palavras, poderíamos dizer que tanto a lógica aristotélica como a Ars luliana baseiam-se na mesma psicologia , mas esta última tenta aproximar-se cada vez mais do ser real a partir dos princípios e causas do seu ato , os correlativos do ato.
Nesta altura do nosso trabalho sobre a Ars luliana somos obrigados necessariamente a mergulhar no intrincado problema das relações entre ser e pensar. Sendo a Ars uma lógica universal, baseada no ato de ser dos entes, o movimento implícito nesse ato levanta uma importante questão. Na Ars luliana, o pensar fundamenta-se no ser, ou é o ser que encontra seu fundamento no pensar, como defendem todos os imanentismos? Para responder a esta indagaçÊS, é bom lembrar que a principal tese imanentista não apenas identifica ser e pensar, como fez Parménides. O eleata tinha plena consciência da impossibilidade dum ato de pensar sem objeto pensado; todavia, dada a dificuldade que encontrou em compreender o ser dos entes das coisas sensíveis, concluiu que o ser das coisas sensíveis em certo sentido não é; e a partir dessa conclusão conduziu sua atenção para a atividade de pensar, tirando importância ao objeto pensado, e abrindo assim as portas para o imanentismo posterior. A partir de Descartes, essa identificação entre pensar e ser chegará a perder seu núcleo interior - aquele que permitiria ainda chegar a uma solução do problema das relações entre pensamento e realidade -, por originar-se o imanentismo cartesiano num pensamento vazio de conteúdo. Concebeu-se, pela primeira vez, uma atividade de pensar sem qualquer objeto, e esta postura levará necessariamente a afirmar, num primeiro passo, que o ser é posto pelo pensar, e finalmente, que nada tem valor, o que é coerente pois do nada se partiu. Bem diferente é a metafísica luliana. Para Lúlio, o pensar estará sempre incluído no ser e terá sempre um conteúdo. O pensamento é o ato próprio do ser inteligente. Lembremos novamente que nada estaria em ato se não fosse pelos atos dos princípios universalíssimos e é por esse caminho dos princípios que anda a investigação luliana. O que as coisas são realmente, o valor das coisas, virá dado, a través da Ars, pelos seus princípios constitutivos. Conheceremos o valor dos entes na medida em que descubramos suas relações com o todo, sobretudo as relações com os seres pessoais, e principalmente com Deus, no qual esses princípios são infinitamente atuais e se identificam com a sua Essência . A metafísica luliana é uma metafísica de atos e de co-atualidades, e em Lúlio o pensamento humano, sendo também um ato - o ato de um ser inteligente -, será sempre subsidiário do ente concreto. Nos diversos imanentismos históricos o verum é o fundamento do ens, enquanto que nos realismos, o ens fundamenta o verum e o bonum. O que nos diz Lúlio sobre este ponto? No verão de 1300, na sua terra natal de Maiorca, o filósofo catalão terminou seu Principia Philosophie que tinha como objetivo expor os princípios filosóficos que se poderiam extrair mediante o método de sua Ars. Seu discurso, como sempre extremamente sistemático, consiste numa extensa análise do ente. Começa pelo reflexão sobre o ente enquanto ente, e com a ajuda da Ars, obtém inúmeras conclusões verdadeiras e necessárias. A seguir, seu método leva-o a investigar o ente mediante indagações binárias, do tipo ente e não-ente, ente possível e impossível, ente verdadeiro e falso, ente bom e mau, e assim sucessivamente. O realismo das argumentações é patente. Não só implícito, mas explícito. Quando se pergunta, por exemplo, pela possibilidade de algum não-ente ser de algum modo ente real, responde dizendo que não, pois nenhum não-ente é ente fora do entendimento, sendo o não-ente que se encontra na alma apenas uma semelhança do ente real. Afirma claramente a realidade do ente extra-mental, e diz que o não-ente é construído só pelo entendimento . De qualquer modo, o realismo básico da Ars deve ser bem compreendido. Trata-se dum método de aproximação aos atos dos entes, que por serem atos, são inteligíveis. Mas por inteligível não se deve entender conceitualizável. Nosso entendimento atinge os atos dos entes, porém não os possui. O entendimento apenas possui as formas pelas quais o ato sempre se manifesta; contudo essas formas pensadas encontram-se no entendimento pelo seu próprio ato de conhecer: o ser do conhecido enquanto conhecido é o ser do conhecimento. Ora, conhecer os entes não é conhecer apenas suas formas; é conhecer também seu ser, e a isso se destinará a Ars. Mas o ser, repetimos, não é conceitualizável. As formas fecham o ente, mas não fecham o ser. Contudo, a identidade do ente não provém da forma, mas do ser. Lúlio sabe disso, e sabe também que o mecanismo da Ars apenas aproxima dessa identidade do ser em si, sem obviamente chegar nunca a possuí-la em toda a sua riqueza, dado que o ser dos entes concretos é atividade. Cabe dizer, pois, que as formas pensadas, escondendo o caráter ativo do ser, exercem um papel limitador do conhecimento, e diante disso, o mecanismo da Ars comparece como subsidiário do conhecimento, ao tentar aproximar-se da verdade real do ente concreto, mediante o conhecimento do seu ato. Lúlio, portanto, com sua Ars, oferece-nos uma ferramenta que ajuda a penetrar no ato do ente concreto. Como acabamos de ver, o mecanismo da Ars supõe o realismo e parte sempre do real. Não obstante, alguns autores chegaram a ver na "figura do ente" luliana, e na Ars, um sistema próximo ao idealismo, deformando assim - certamente desde uma perspectiva extrínseca à intenção de Lúlio e ao que realmente ele se propunha -, o seu pensamento. Também não parece correta uma interpretação que considerasse os princípios universalíssimos como conceitos a priori do entendimento, com os quais, à semelhança duma analítica transcendental em sentido kantiano, pensaríamos os objetos. Insistimos dizendo que Lúlio chega sempre a esses princípios partindo do real concreto. E se parte do real, chegará necessariamente a algo também real. A metafísica luliana não é portanto um ontologismo, que vê as coisas em Deus, mas pelo contrario chega a Deus a partir das coisas. Talvez a melhor maneira de demonstrar o que se afirma nos parágrafos anteriores é apresentar a demonstração luliana da existência de um único Deus. Suas argumentações nos servirão como mais um exemplo do funcionamento dos princípios universais constitutivos do ato, em que sempre se apóia o mestre maiorquino. Primeiro, a partida do real: "Há bondade real finita. Portanto, alguma bondade deverá ser por si própria. E tal bondade estará em grau superlativo, por não haver outra, que seja do seu gênero, acima dela, e também porque perfaz todas as outras bondades que não são por si mesmas." Desta maneira, num único passo, Lúlio se levanta diretamente da bondade imperfeita, a bondade que não pode ser por si, para a realidade da bondade perfeitíssima, a bondade subsistente. Fica patente, pois, que o mestre catalão não extrai a existência de Deus a partir da sua essência, como se aquela fosse uma perfeição a mais, necessária, de sua essência infinita, que é o procedimento seguido pelos ontologistas e racionalistas imanentistas. Lúlio, pelo contrário, segue o procedimento aviceniano que conduz diretamente da perfeição limitada à sua causa, e que se baseia no seguinte princípio: toda perfeição essencial ou propriedade que se encontre em menoridade ou de um modo deficiente, isto é, realizada não segundo toda a sua amplitude de que é capaz, é necessariamente causada ab extrinseco por outro que é essa perfeição por si . Portanto, "alguma bondade deverá ser por si própria." Lúlio demonstra a seguir a impossibilidade da não existência dessa bondade suma: "se, porém, tal bondade em superlativo grau não existir, sua oposta é; e privadas dela, todas as outras bondades são imperfeitas. Como isto é impossível, a suma bondade é real." E finalmente explica que "a razão disso é o mesmo ente ótimo, que produz o ótimo. Sem ele, a bondade não seria suma, nem permaneceria no grau superlativo" . É o ente ótimo, aquele que é o Ser por si, quem nos permite efetuar o salto da bondade imperfeita para a perfeita. Neste argumento torna-se também patente a tese da bondade do ser, que impregna toda a obra luliana. Vejam-se essas outras palavras do maiorquino: "se Deus é, seu ser é bom, grande e eterno. Se Deus é verdade, está em maior realidade de bondade, grandeza e eternidade... Convém que a bondade de Deus seja grande, tão grande que não possa ser maior, pois se pudesse sê-lo, seria grande em potência e pequeno em ato." Note-se a argumentação calcada sobre a conveniência dos princípios entre si. De modo semelhante provará, apoiando-se na bondade de Deus, a sua unidade e o seu repouso na simplicidade de sua perfeição : "Convém que seja grande a bondade de Deus, tão grande que não possa ser maior, pois se pudesse ser maior, seria grande em potência e pequena em ato, a qual pouquidão seria contra a grandeza e contra a bondade e contra as outras formas, e essa contrariedade é impossível. É, pois, a bondade de Deus tão grande que não pode ser maior, e a maior bondade que pode existir é ser uma que seja Deus, de tal modo que outro deus não tenha outra bondade, e assim a bondade seja infinita em grandeza, infinitude que consiste em ser uma e não muitas. Se houvesse muitos deuses, não seria suficiente um deles para ser fim por si mesmo de suas formas. A bondade de um deus, completa e finalizada, não teria repouso em sua grandeza, pois haveria outra grandeza: a do outro deus. Isso mesmo aconteceria com a grandeza, que não repousaria na bondade, pois haveria outra bondade divina; e assim nenhum deus teria seu fim em si mesmo nem em outro, pois, tendo-o em outro, não seria deus. As formas, pois, de cada um desses deuses encontrar-se-iam vazias de finalidade, vazio que é impossível. Há, pois, um Deus, e não muitos, no qual cada uma de suas formas obtém repouso, estando cada uma delas nele de um modo infinito e sendo ele próprio infinito e sem defeito." Observe-se que Lúlio diferencia formas em Deus, a pesar de afirmar constantemente que Deus é ato puro de ser. Deve isto a que o ato, como já foi dito acima comporta diferenças, e são justamente essas diferenças as que a Ars pretende tornar patentes. A longa citação que acabamos de ler, além de evidenciar o realismo luliano, mostra que a metafísica luliana não é uma onto-teo-logia porque não submerge Deus e a fé nas realidades humanas, tal como fazem todos os imanentismos. Longe de fechar Deus no conceito - no conceito de um ente supremo, estabelecido a priori pelo pensamento humano -, o Deus que Lúlio alcança é o do Ser transcendente. A onto-teo-logia não ultrapassa o ente ; Lúlio, além de colocar o ato de ser como fundamento do ente, atinge o fundamento desse ato ao atingir o Ato puro de Ser. Nada pois de imanência, na Ars luliana. Transcendência, sim. Capta-se a transcendência, porque o Ato Supremo de Ser, por ser ato, pode ser atingido pelo entendimento humano. Mas não possuído. Em todo caso, se chamamos imanente àquela operação cujo efeito ou termo é interior ao sujeito que age, a Ars luliana ensina-nos que, como o ser é o fundamento do conhecer, quanto mais o homem estiver radicado no Ser e na causa do Ser, mais imanentes serão seus atos; isto é, seus atos de conhecimento e de amor mais se aproximarão da posse de seu fim. Mas nesse caso estamos já falando da autêntica imanência, aquela em que o eu, tendo-se colocado em Deus - o sempre presente ser em Deus, que impregna toda a moral luliana -, passa a ter uma consciência cada vez maior da responsabilidade de suas escolhas, tornando-se princípio, meio e fim de seus atos . ____________________________________
2 Constitui uma versão reduzida do curso de Artes, tal como se ensinava nas Universidades de Paris e Tolosa perto do 1.300. Para uma descrição completa de seu conteúdo, cf. J.N. HILLGART, Ramon Llull and Lullism in Fourteenth-Century France (Oxford 1971), assim como o breve resumo do próprio HILLGART, em Estudos Lulianos XVI(1972), 113-23. Para uma descrição resumida do manuscrito, cf. ROL V, 216-30. 3 Cf. Breviculum, Lâmina XI, "Domine, moderni gaudent brevitate considerabilium; ideo iam praeceptum est mihi, prout est possibile bono modo, actuum librorum vestrorum abreviare sententias, intelectu tamen integras, atque alleviare studium et fatigationem oculorum, confusionem significatorum alphabeti demonstrativae Artis et sexdecim eiusdem Artis figuras, quae confundunt intellectum." p. 45 4 Cf. HILLGART, Estudos Lulianos XVI(1972), 116. O prof. Anthony BONNER, na resenha que fez do Breviculum em SL XXXI(1991) p. 83-87 opina que sua leitura passará a ser obrigatória para quem quiser analisar e entender a estrutura mental erigida por LÚLIO. 5 F. VAN STEENBERGHEN opina que LÚLIO foi o primeiro a utilizar o termo "averroístas" como dirigido, não só aos que defendiam a unidade do inteleto agente, mas a todos os que defendiam os erros condenados em 1277 pelo bispo TEMPIER. Cf. Histoire de l'Église depuis les origines jusqu'a nos jours, Bloud & Gay 1951, p. 316. 6 LE MYÉSIER possuia as obras de lógica de OCKHAM, de João BURIDANO, de Gualterio de BRULEIGH, etc. Na Pars antecedens do Electorium incluiu o Tratado da potências da alma, de Jean de la ROCHELLE, um resumo da Física de ARISTÓTELES feito pelo dominicano Jean QUIDORT e o Comentário de AVERRÓIS à mesma obra, a Abreviação da Metafísica de ARISTÓTELES feita pelo franciscano Gonçalvo HISPANUS e, finalmente, os Errores philosophorum de Egídio ROMANO. Cf. HILLGART, Estudos Lulianos XVI(1972), 115 e nota 12. 7 Cf. Fernando Domínguez REBOIRAS, Introduccion, ROL volume 19, Brepols, 1993, p. 40. 8 É já bastante extensa a bibliografia sobre a Ars luliana. Entre outros artigos, podem-se consultar com proveito Robert PRING-MILL, The Lullina 'Art of Findig Truth': A Medieval System of Enquiry, Catalan Review, IV (1990) 55-74; Armand LLINARÈS, Sens et portée de l'Ars Generalis ultima de Lulle, in "Studia Historica et Philologica in honorem M. Batllori", Roma 1984, 851-866. 9 Cf. Breviculum, Pars Dispositiva, p. 53-54. 10 Cf. id, id., p. 56, linhas 257-260. 11 Que o conhecimento é expressivo vem confirmado pelo fato de que é dando aulas ou escrevendo quando mais aprendemos. Sobre a doutrina do conhecimento como ato expressivo e locutivo consulte-se a obra de excepcional valor e significado de Francesc CANALS Vidal, Sobre la esencia del conocimiento, Promociones Publicaciones Universitarias, Barcelona 1987. 12 Cf. Breviculum, Pars Dispositiva , p. 56, linhas 274-275. 13 Cf. id, id., p. 57, linhas 417-428 e p. 60, linha 626. 14 Cf. id, id., p. 60, linhas 614-616. 15 Com a afirmação desta diferença entre o princípio e seu ato, LÚLIO separa-se definitivamente, já de entrada, de todas aquelas filosofias que identificam ser e ação. Estas posturas - nelas incluímos todas as filosofias da ação, o idealismo alemão e o personalismo de MOUNIER - conferem uma primazia do dinâmico sobre o entitativo, de tal modo que de alguma maneira o ente se autorrealizaria a si próprio mediante a sua própria atividade. Algumas delas chegam até a conceber o absoluto como resultado do devir. Nada mais afastado do pensamento luliano. Logo no início, ao definir os princípios universais, LÚLIO começa por afirmar que o valioso em si é a perfeição própria de cada princípio, e é justamente essa perfeição a que explica o dinamismo de sua comunicação. LÚLIO distingue, pois, entre o princípio e seus atos, e fundamenta os últimos no primeiro. 16 LE MYÉSIER esclarece que já ARISTÓTELES afirmava todas as coisas serem três e dividirem-se em três dimensões, Cf. De Caelo et Mundo, I i, (268a 7-15) e que os pitagóricos alegavam que tudo insinuava uma tríplice composição: o fim, o meio e o princípio. Cf. Breviculum, Pars Dispositiva, p. 60, linhas 654-665. 17 Cf. id, id., p. 65, linhas 1070-1074. 18 Cf. id, id., p. 66, linhas 1086-1137. 19Cf. id, id., p. 66-67, linhas 1153-1161. 20 As categorias aristotélicas, que classificam os entes em diversos grupos ou gêneros, foram estabelecidas a partir da estrutura predicativa da linguagem. Para esta parte das categorias aristotélicas e sua unificação, veja-se o excelente livro de Jesus de GARAY, Los sentidos de la forma en Aristóteles, Eunsa 1987, p.101. 21 No juízo "a maçã é verde" a atualidade da "maça" é maior que a de "verde" , não obstante no juízo as unifiquemos. A verdade da proposição depende contudo da verdade do ente real, que se assenta no seu ato de ser. Essa verdade real é a que pretende desvelar Lúlio com os mecanismos da Arte. 22 Cf. Met., VI-4, 1028a 1-2: "Causa enim huius quidem indefinita, illius vero mentis aliqua passio, et utraque circa reliquum genus entis, et non extra ostendunt entem aliquam naturam entis." 23 Cf. Met., XI-8, 1065a 23-24: "Quod autem ut vere ens, et secundum accidens, hoc quidem est in complexione mentis et passio in hac: propter quod circa sic quidem ens, non quaeruntur principia."; Id., VI-4, 1028a 3-4: "Perscrutanda vero sunt ipsius entis causae et principia, inquantum ens"; 24 Examinar a compatibilidade entre
a lógica aristotélica e a Ars luliana é outra questão.
De fato não parecem compatíveis, pois a primeira procura
as diferenças entre formas que, sendo participadas por entes
diversos, são unificadas pelo entendimento no conceito; enquanto
que a última tenta alcançar as diferenças e determinações
de atos, que são distintas das diferenças que se dão
entre as idéias. As idéias são as formas pensadas,
e se apresentam sempre iguais. As diferenças da realidade são
diferenças de movimentos e atividadades. Portanto umas não
coincidem com as outras. 25 Cf. MOG III, ii, 1 (55), citado por J. M. Ruiz SIMON, "Quomodo est haec ars inventiva"(L'art de Llull i la dialèctica escolàstica), Studia Luliana 33 (1993), 77-98 26"Metaphysica enim considerat
res, quae sunt extra animam, prout conveniunt in ratione entis: Logica
autem considerat res secundum esse, quod habet in anima, quia tractat
de quibusdam intentionibus, quae consequuntur esse rerum intelligibilium,
scilicet de genere, specie & talibus, & de iis, quae consistunt
in actu rationes, scilicet de syllogismo, consequentia & talibus;
sed haec Ars tanquam suprema omnium humanarum Scientiarum indifferenter
respicit ens secundum istum modum & scundum illum." Introductio
Artis demonstrative, MOG III, ii, 1 (55), citado por SIMON, op. cit.
p. 95. 28 ARISTÓTELES apresenta sua lógica demonstrativa na sua Analítica, nos Primeiros e Segundos Analíticos. 29 Com a Arte podem-se abordar temas de fé, se assim o desejar o artista; mas quando forem contemplados, esses temas entrarão nela sempre a título de conteúdo, nunca de argumentação. Uma das características mais originais da obra luliana consiste na ausência quase que total de argumentos de autoridade, incluídas as Sagradas Escrituras. Sobre essa questão, cf. Anthony BONNER, A "arte" luliana como autoridade alternativa, VERITAS v. 41, 163 (1996) 457-472. 30"Igitur per hanc Artem possumus invenire infinitas habitudinies, & secundum eas formare diversas propositiones", Introductio Artis demonstrative, MOG III, ii, 33 (87), citado por SIMON, op. cit. p. 85. 31 A edição crítica de todos elas foi publicada no volume XX das ROL, na coleção Corpus Cristianorum Continuatio Mediaevalis, vol CXIII, Brepols. 1995. 32 É esse LÚLIO da última fase, que entusiasmou Nicolau de CUSA, até o ponto de possuir em sua biblioteca particular mais de oitenta obras do maiorquino. Á seguir cito alguns artigos sobre as relaçõs entre Nicolau de CUSA e Raimundo LÚLIO cf. HAUBST , Zu dem Aufsatz von Rudolf Haubst "Der Junge Cusanus war im Jahre 1428 zu Handschriften-Sudien in Paris": Mitteilungen und Forschungsbeiträge der Cusanus-Gesellschaft 15 (1980) 198-193; Eusebi COLOMER, id: Mitteilungen und Forscungsbeiträge der Cusanus-Gessellschaft 15 (1982) 57-70; Id., Nikolaus von Kues und Raimund Llull. Aus Handschriften der Kueser Bibliothek, Berlin 1961: Id., Noves dades entorn del 'Lul-lisme' de Nicolau de Cusa, Estudio Lulianos 25 (1981-3), 67-81; Ramon Llull i Nicolau de Cusa (A la llum dels manuscrits lul-lians de la Biblioteca cusana), Estudios Lulianos 4 (1960), 129-150; PINDL-BÜCHEL, THEODOR, Nicolas of Cusa's "Extractum ex libris meditacionum Raymundi" ik the Manuscript Transmission of Ramon Llull's latin Liber contemplationis: Preliminaries to a Critical Edition, Catalan Review 4 (1990), 299-322; F. Erhard-Wolfram PLATZECK, Observaciones del P. Antonio Raimundo Pascual, O. Cist., sobre lulistas alemanes, Revista Española de Teologia, I (1940-41), 731 -765 e id., II (1942), 257-324; Fernando Domíngues REBOIRAS, Nicolás de Cusa y las colecciones lulianas de París. Notas al códice 83 de la biblioteca del St. Nikolaus-Hospital en Bernakastel-Kues, Revista Catalana de Teologia, XIX (1994) 129-139. 33 Liber de intellectu, II, i , p. 200 linhas 44- 50. 34 Na lógica aristotélico-tomista a simples apreensão já nos levanta ao nível do ser. Na abstração obtemos uma essência que vemos realizada pelo ente que conhecemos. Depois, através de muitos juízos, vamos atribuindo ao mesmo ente diferentes formalidades. Lúlio mantém o mesmo mecanismo - abstração da espécie inteligível, atividade do entendimento agente, etc. - mas ao mesmo tempo tenta captar diretamente o ato de ser do ente conhecido através dum exame meticuloso da concordância dos princípios do ato. 35 "Las diferencias del logos son indisolubles del ser como acto. No cabe pensar - aunque sí imaginar - un ser enteramente indiferenciado. El ser de lo real en cuanto real no es el género máximamente indeterminado carente de formalidad. De acuerdo: el ser no es una determinación más, sino algo que trasciende las determinaciones; pero tal determinación no comporta ausencia de diferencias. Si ser no es "algo" , ser no es nada. Hay que ser sin embargo prudente con la interpretación del "algo": "algo" aquí no es sólo una palabra o idea, sino también, y ante todo movimiento y actividad: por eso, las diferencias de la realidad no son tampoco primariamente diferencias de palabras o de ideas, sino en primer lugar de movimientos y actividades." Jesus de GARAY, op.cit, p.151 e releia-se a nota 24 deste trabalho. 36 "Lo que vale en las criaturas o fuera de ellas no tiene nada que ver con la psicología. Porque valor no es valorar. El juicio o la inteligencia valoran; pero esta palabra es analógica, porque lo que realmente hace el juicio es estimar. Pero el valor en sí mismo es una perfección divina en sentido luliano. De aquí que una cosa vale, prescindiendo de que se le reconozca o no este valor, porque en cada ser urgen las ordenaciones eternas, que no pueden dejar de estar en concordancia con las perfecciones divinas. De aquí que cuando el bienaventurado maestro aprecia el valor esencial de las Emperatrices divinas en el seno de la Divinidad y en sus semejanzas, no trata de motivos psicológicos, sino que designa, con un sentido realista, unas formas determinadas e inconfundibles de realidad. Así, dice: "Divina Bondad y creada bondad participan en semejanza", "Cuanto vale, vale en Dios". Y "los valores valen más en sí mismos que fuera"; "toda belleza vale más dentro que fuera.", em Francisco SUREDA Blanes, La simbologia en el pensamiento filosófico luliano, Revista de Teologia, III (1944) ns. 10-11, p. 499. LÚLIO foi o primeiro a utilizar o termo valor no sentido que tem atualmente. Para o tema do valor em LÚLIO, cf. P. Erhardus W. PLATZECK, De valore ad mentem Beati Raimundi Lulli, Antonianum, XXX (1955) Fasc. 2, p. 151-184. 37 LÚLIO tinha em vista defender a concordância entre filosofia e teologia, cf. Principia Philosophiae, ROL XIX, opus 86, Introducción de Fernando Dominguez REBOIRAS, Brepols 1993, p. 5. 38 "Utrum aliquod non ens possit esse per aliquem modum ens reale? Resp. Si non ens est in anima similitudo entis realis, omne ens, quod est extra animam, est ens reale. - Supposito, quod non esset intellectus: utrum non ens foret possibile? Resp. Si extra intellectum nullum non ens est ens, solus intellectus facit non ens", Principia Philosophiae, p. 161-2 e 241. A primazia do ente real sobre o ente ideal - o não-ente, ou o nada, construído pela mente - que se revela nestas citações situa LÚLIO em plena oposição a HEGEL, para quem o ser como idéia, ou o ser no seu estado de reflexão com o não-ser , tinha absoluta prioridade. 39 Assim E. COLOMER afirma que "pocos sistemas medievales se han acercado tanto como el de Llull al ideal platónico y hegeliano de una lógica que sea a la vez ontología." cf. Miscellanea Mediaevalia, t. 2, Berlin 1963, 582-588, p. 582. citado por Fernando Domínguez REBOIRAS, ROL XIX, Brepols 1993, Introducción a Principia Philosophiae, p. 14 nota 25. 40 Tomás de AQUINO, além desse procedimento, utilizou o platônico (a multiplicidade é causada pela unidade) e o aristotélico (diz-se que uma perfeição encontra-se realizada em diversos graus por referência a um máximo), para demonstrar a existência de Deus pela quarta via. Cf. Francisco P. MUÑIZ, La <<quarta via>> de Santo Tomás para demostrar la existencia de Dios, Revista de Filosofia, 10-11(1944), p.417-422. 41 Cf. Esteve JAULENT, A demonstração por equiparação de Raimundo Lúlio (Ramon Llull), em "Lógica e Linguagem na Idade Média", org. Luis A. De BONI, Edipucrs 1995, p. 157-158 42 Cf. "Bonitas est. Et quaedam bonitas est propter se ipsam. Et talis bonitas est in superlativo gradu, eo quod non habet aliquid, quod sit de suo genere, supra se, et quia etiam perficit omnes alias bonitates, quarum nulla propter se ipsam est. Et si talis bonitas non est, suum oppositum est; et ipsa privata, omnes aliae bonitates sunt imperfectae. Et quia hoc est impossibile, idcirco ipsa summa bonitas est. Quae est ratio ipsi enti optimo, quod producat optimum.Aliter ipsa bonitas non esset summa et in superlativo gradu permanens." Metaphysica nova et compendiosa, III dist., in ROL VI, op. 156, p.11. 43 De les flors del Arbre apostolical, 1 e 2, ORL, XII, p. 42s. re 47, citado por Francesc CANALS Vidal, La demonstración de la Trinidad en Ramon Llull, Estudios Lulianos, 25 (1980) p.8 44 Cf. Francesc CANALS Vidal, id. p.12-13 45 Arbre de Ciència, De les flors del Arbre Apostolical, 2. De la unitat de Déu, XII ORL, p. 46 e 47-8, citado por Francesc CANALS Vidal, id. p.13 46 Veja-se a nota nm. 35. 47 Como muito bem diz Eudald FORMENT, a onto-teo-logia instala-se no ente e esquece o ser, cf. E. FORMENT, El problema de Dios en la metafísica, Promociones Publicaciones Universitarias, Barcelona 1986, p. 195. 48 Cf. Andrea DALLEDONNE, Cenni
sul pensiero e sull'opera del padre Cornelio Fabro, in "Cornelio
Fabro pensatore universale", Andrea DALLEDONNE i Rosa GOGLIA, Frosinone,
1996, p. 48. "All'immanentismo progressistico si deve, allora,
opporre l'<autentica immanenza> la quale 'é ... nel possesso
inalienabile della liberta dell'io che opera il movimento doppio quello
dell'immanenza nella fondazione sull'assoluto e quello dell'immanenza
nella crescente consapevolezza che l'io ha nella responsabilità
delle proprie scelte. Una immanenza in cui l'io é principio,
medio e fine, perché collocato nell'infinito'".
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